Inquietações Pedagógicas

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso…"  Jorge de Sena in Metamorfoses

4.4.05
 
O Inglês (obrigatório!) no 1º Ciclo do Ensino Básico – Quem Vai Ensinar?
Ao longo das últimas duas décadas, múltiplas experiências de ensino de línguas estrangeiras têm ocorrido em escolas do 1º ciclo, umas bastante boas e outras nem por isso, podendo caracterizar-se a situação pela diversidade e permissividade. Qualquer língua pode ser ensinada. Os professores podem ser de qualquer ciclo ou nível de ensino, de escolas privadas ou até free lancers. Quanto a programas, nunca se passou da definição de competências essenciais que, não sendo o ensino obrigatório, não se percebe porque assim são designadas. Às escolas, apenas algumas condições são teoricamente requeridas, curiosamente contraditórias entre si: a existência de recursos adequados; a gratuidade para os alunos; a não exigência de encargos adicionais para as escolas.

A indefinição e a falta de iniciativa central têm gerado iniciativas locais diferenciadas que colocam os alunos em situação desigual à entrada do 2º ciclo. Se nos situarmos numa perspectiva de cidadania europeia, de que o que importa é promover uma competência plurilingue que permita compreender e produzir mensagens em diversas línguas, dominando-as a níveis diferentes, estes percursos diferenciados dos alunos ao longo da sua escolaridade poderão ser aceitáveis.

O programa do actual governo PS, nitidamente, não se situa nesta perspectiva. Preconizar o ensino generalizado do inglês no 1º ciclo significa colocar esta língua (e não outra qualquer) ao mesmo nível das outras áreas curriculares, ou seja, considerar que o inglês é parte das aquisições básicas e por isso deve beneficiar de um tempo privilegiado para o seu desenvolvimento. É uma perspectiva defensável. Vejamos: o inglês tem vindo progressivamente a assumir o estatuto de lingua franca na comunidade internacional. Razões históricas levaram a que o inglês seja hoje a língua mais comum na comunicação entre falantes de línguas maternas diferentes e que, importantíssimo, seja a língua de difusão do conhecimento e da tecnologia. Para o bem e para o mal, não dominar hoje o inglês é estar em desvantagem. Assim sendo, sem excluir uma política de ensino de línguas virada para a diversidade linguística e cultural no seio da comunidade europeia, ter como objectivo o domínio desta língua por parte dos cidadãos é uma opção que só pode ser aplaudida.

Partindo deste pressuposto, as responsabilidades do ME aumentam e muito. Isto é, enquanto área curricular obrigatória, o inglês deve estar bem integrado no currículo. Acontece que uma boa articulação curricular no 1º ciclo só é possível com a participação dos professores, generalistas, deste nível de ensino. Dir-me-ão que a maioria não tem formação nesta língua. É verdade. Será que a solução passa então pelo recrutamento de professores do 2º ou 3º ciclos, com formação especializada na área? Depende, se a especialização é na área e não no nível de ensino, ela é notoriamente insuficiente. A questão é esta: para ensinar inglês no 1º ciclo é preciso conhecer e saber interligar duas realidades: a língua e as crianças. Donde, actualmente, em termos genéricos, poucos são os que estão habilitados para a tarefa. Pensar em generalização neste momento passa por conceber um bom plano de formação de professores a médio prazo. Que professores? Os especialistas ou os generalistas? A experiência diz que é mais adequado formar os generalistas desde que estes tenham interesse e motivação. Como isto nem sempre é verdade, formar especialistas também pode ser uma boa opção. Uma coisa é certa. Os generalistas terão sempre um papel - o de professores da sua turma, autores do projecto curricular de que o inglês é parte. Sozinhos ou em equipa, esta é uma tarefa que lhes compete. Para a realizarem, têm direito a formação suplementar adequada.

Albertina Palma
*Publicado no jornal A Capital a 2 de Abril

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