Inquietações Pedagógicas

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso…"  Jorge de Sena in Metamorfoses

7.7.06
 
LENDO OS JORNAIS...
No suplemento de Economia do Diário de Notícias de ontem (5 de Julho), uma notícia sobre uma compra de "activos imobiliários"pelo Fundo Imorendimento II terminava com a seguinte citação : "A Imorendimento destaca a "elevada qualidade arquitectónica e patrimonial dos edifícios adquiridos, que vêm prestigiar o portafólio do fundo, aportando-lhe uma rentabilidade consistente com a política de investimentos". Gostaram ? Eduquês não é certamente. Será "economês" ?

Em todo o caso não suscita a ferocidade que parecem provocar as pessoas da educação : uma sessão na Casa Fernando Pessoa terminou com literatos apelando ao "fuzilamento dos professores". Entrevistas e crónicas de cientistas sociais sugerem que os problemas do ensino se resolveriam lançando napalm sobre o Ministério da Educação e os seus grupos de trabalho. Tamanha ferocidade só encontra paralelo -e bem mais artesanal - no apelo ao apedrejamento dos fiscais do ambiente pelo autarca e Presidente da Associação Nacional de Municípios Fernando Ruas. Tudo figuras exemplares...

Porque será esta sanha ? E porquê tanto respeitinho pelo economês ? Alguém me explica ?

Maria Emília Brederode Santos

Comments:
O "economês" que nos apresenta, faz parte do discurso neoliberal, constituindo a sua "substância" pseudocientífica para economista dessa corrente usar. Tem uma versão light e de uso do senso comum que está bastante expandida no discurso dos políticos e dos meios de comunicação para o povo consumir. Já o "eduquês", como jargão das ciências da educação é um alvo mais fácil para a crítica barata. Não tem o aval do pensamento único e não conseguiu formular uma versão popular para que os não iniciados a entendam. (Em Portugal a crítica do "eduquês" não têm passado da retoma fora de tempo e pobre de críticas formuladas noutros países.
Essa crítica não passa de meia dúzia de fórmulas repetidas até à exaustão e que se contentam com a sua própria reprodução.)
 
Eduquês, enquanto jargão de uma política educativa virada para os resultados baratos, imediatamente verificáveis e não sustentados, é a outra face da modeda deste economês. Ambos são parte - não apenas do discurso - mas da ideologia neoliberal. Ambos são nocivos porque barrocos, no sentido em que ocultam a vacuidade sob a frondosidade do discurso pretensamente técnico, hermético, acessível tão só a iniciados. Quando o signo se divorcia do referente, não é por acidente.
 
O que mais imprssiona naqueles que criaram o "conceito" de eduquês é o desconhecimento -e mesmo desprezo -pelas realidades vividas nas escolas e o facto de recusarem a educação como objecto de estudo. Por eles tudo ficaria resolvido com a recriação da escola que frequentaram.
É certo que as Ciências da Educação têm dado o flanco, designadamente pela falta de pertinência de grande parte dos trabalhos que produzem em Portugal......Que auxílio têm dado a quem quer melhorar práticas? e resultados?
A comparação que a Maria Emília faz com o economês é muito interessante .
 
Porquê?! Porque neste país não há Educação, não há Cultura não há Ética.
Viva o betão, o petróleo verde, o condomínio sobre a falésia a liberalização das rendas, etc. etc.
 
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