Inquietações Pedagógicas

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso…"  Jorge de Sena in Metamorfoses

22.9.06
 
OS SALVADORES DA EDUCAÇÂO E A DEMAGOGIA
Os salvadores da educação e a demagogia

Mais uma vez a demagogia fácil sobre a educação tem tido espaço nas primeiras páginas dos jornais
Hoje é o DN, com o anúncio de propostas para a “salvação” da educação.
Que a educação em Portugal precisa de mudar substancialmente os resultados obtidos, que os alunos têm de aprender muito mais e trabalhar mais é um facto.
O dossiê da Visão desta semana sobre “O Estado da Educação” mostrava-nos uma vez mais os números da nossa vergonha.

Gostaria de convocar as palavras de Joaquim Azevedo num artigo do JL inserido recentemente neste blog “as explicações fáceis e cabais, que estabelecem relações causa-efeito nunca estudadas nem demonstradas, são serpentes que encantam, porque de facto urge agir e melhorar a situação”...........” O problema é que, entretanto, só estamos a empurrar os problemas reais e difíceis para debaixo do tapete.
.............” A melhoria gradual e sustentada da educação escolar dos portugueses, nestes dias, eles próprios tão difíceis de enxergar, requer seguir vias bem mais difíceis de discernir, bem mais espinhosas na sua aplicação, envolvendo uma pluralidade de actores sociais e muito mais exigentes na sua avaliação e correcção.”...........

Eleger as pedagogias, que se dá provas de não conhecer, como bode expiatório dos maus resultados é, no mínimo, manifestação de desconhecimento do terreno e demagogia.
Em vez de se tentar entender as situações de grande complexidade que aí existem e tentar ver onde é que os problemas estão a ser resolvidos, acompanhar os efeitos de algumas medidas que estão a ser tomadas, fazem-se diagnósticos apressados e tiram-se soluções demagógicas da cartola.
Como se pode atribuir ao “romantismo construtivista” os problemas que existem? Onde é que foi massivamente aplicado?.
Temos de ultrapassar esta atitude de pesquisa de bodes expiatórios, sejam eles as pedagogias, os professores, a falta exames, a formação de professores.....Os problemas terão a ver com alguns destes factores, mas estabelecer relações lineares de causalidade é um absurdo.
Acredito cada vez mais na importância da autonomia de cada escola e na capacidade de definir projectos, metas e caminhos para resolver os problemas; acredito na avaliação dos projectos e responsabilização das equipas docentes e das escolas pela melhoria dos resultados escolares. Acredito porque tenho encontrado, em Portugal e noutros países, escolas a resolver alguns problemas graves por estas vias, conjugando responsabilidade / empenhamento na melhoria das aprendizagens e inovação.

Já houve várias vezes ao longo de anos a ilusão de que as propostas de reformas iam resolver todos os problemas. Já tínhamos a obrigação de nos saber defender dos “salvadores”.

Ana Maria Bettencourt

Comments:
Vale a pena ler, a este propósito, a entrevista do Ministro da Finlândia (NM, 17/09/06) - país que tem servido de referência para muita da argumentação demagógica e pouco esclarecida - e lançar algumas interrogações:
- qual a relação entre o papel da Escola e a elevada taxa de suicídio dos jovens naquele país?
- as crianças finlandesas passam apenas cerca de 4h/dia na escola até ao final da escolaridade obrigatória, as restantes actividades desenvolvem-se fora do contexto escolar...
- para os defensores da avaliação e dos exames: se não existem notas nem mesmo exames até ao final da escolaridade obrigatória, então como se justificam os bons resultados obtidos nas avaliações internacionais?
- se os professores ganham o mesmo que cá, se a escolaridade é gratuíta, desde a pré-primária ao ensino universitário (com ligeiras diferenças), se o orçamento é o mesmo que o nosso - porque não conseguimos fazer como eles?

Há mais interrogações a lançar, mas ficam para outra oportunidade ...

Estes exemplos devem-nos fazer reflectir de forma mais aprofundada, conhecedora e não linear sobre o que se passa quotidianamente nas diferentes escolas do nosso país, de norte a sul.

Até breve...
Margarida Belchior
P.S. - Como é que os senhores, e as senhoras jornalistas, podem ajudar a nossa sociedade a ter uma compreensão mais profunda do que são as nossas escolas, do que é contribuir para que as crianças portuguesas aprendam e cresçam de forma "exigente" e saudável (no sentido global definido pela OMS), quer na escola, quer fora dela? ... Há já tanto "know-how" por cá ...
 
Os nossos órgãos de comunicação social ditos de referência, actualmente, no campo da Educação, estão empenhados em divulgar as vozes do Dono, apoiar acefalamente o Poder e divulgar os demagogos na moda.
 
E outra coisa não seria de esperar por duas ordens de factores que casam na perfeição:
Primeiro, basta ver as reportagens que se vão fazendo nas escolas por esse país fora. Não sei o que é mais chocante: se a submissão orgulhosa aos caciques do ministério, se as práticas do tempo dos afonsinhos que teimam em mostrar, se as roupagens de circunstância escolhidas para a ocasião "solene".
Segundo, herança construída pacientemente pela Escola, a bestialidade crónica do português, incapaz de ver para lá de dois metros, eterno frustrado e ávido de protecção. E essa segurança encontra-a na comunicação social, cumprindo-se o ciclo.
Convenhamos, a verdadeira discussão implica romper com algo, sofrimento. E implica também ser realizada com conhecimento das realidades. Neste momento, não temos nenhuma das duas condições. pelo menos não a nível oficial. O português não gosta de sofrer. O poder político sabe isto melhor que ninguém e sempre o acolheu na sua asa protectora. E é por isso que sente com grande violência os cortes na segurança social, saúde, etc. Poder-se-ia pensar que estas "traições" trariam uma clima da maior abertura à mudança, mas com os indivíduos (guardadores de crianças, animadores, mas muito poucos profissionais) que temos na Escola não há que ter grandes ilusões...

Alberto Costa
 
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